sábado, 25 de julho de 2015

Todo dia tem uma merda. (já dizia o Izzy...)

Olá, meus amores. Faz um bom tempo que não apareço por aqui, então esse lindo post vai ser um compilado das pequenas merdas que tem acontecido ultimamente. YAY!

Como todo mundo sabe (ou não), estive extremamente ocupada surtando e estudando feito uma doente mental para as provas finais, e esqueci que existia mundo la fora.

(material de estudo pra uma das provas, apenas)

E aí fiz todas as provas que precisava fazer.
E aí morri de ansiedade esperando liberarem as notas, pra saber se estava de férias, ou tinha pego exame.
E aí que eu fui aprovada em todas as cadeiras. Ou quase. Porque uma professora resolveu que seria maravilhosa a ideia de me fazer estudar de novo toda a matéria do semestre, pra recuperar 0,03 pontos. Sim. Ela me deixou em exame por menos de meio ponto. Isso mesmo que você leu.

Respirei fundo, engoli o choro, peguei todos os livros que podia pegar na biblioteca (embriologia clínica, histologia básica, dois atlas de lâminas histológicas, um cd de exercícios interativos e o caralho todo). 

(Tá faltando um atlas aí! Cada post it representa um capítulo que eu deveria estudar.)

Passaram-se alguns dias, estudando até minha cabeça explodir, intercalando com momentos de crise existencial. Eu podia estar de férias! Eu poderia já estar em casa, em Caxias! Em vez disso tenho que estudar tudo isso DE NOVO, porque???? Porque sou uma inútil que não conseguiu tirar fucking 0,03 pontos a mais!!!!!1 Puta que pariu!!!!!

MAS ESPEREM!!!!

Numa bela manhã de sol, a queridíssima monitora da disciplina conversou com a professora, que casualmente se deu conta de que estava equivocada em relação à minha nota. E tinha esquecido de somar uns pontos. E considerar uma determinada questão. E que, na realidade, eu não peguei PORRA DE EXAME NENHUM! E TAVA ESTUDANDO ATOA! NAS FÉRIAS! EU TAVA DE FÉRIAS! AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH!

Eu não sabia se ria ou se chorava. Tinha vontade de xingar a professora de todos os nomes, e em seguida dar um abraço. Eu tremia. E custei a acreditar! Fui pra biblioteca devolver aquele monte de livros, voltei de mochila vazia, me sentindo livre! LIVRE! FINALMENTE! 

Saí pra beber cazamiga. E no dia seguinte, embarquei pra casa.

FREEDOM!!! FREEEEDOOOOOM!!!!

~~~~~~~ Em Caxias ~~~~~~~

Subsisti, na minha cama, assistindo séries e morgaaaaaaaaaaaaaando. Teve janta com a galera do spinning... teve janta cazamiga do ensino médio... encontrei casualmente umas colegas da ex-faculdade particular, e combinamos um rolê que acabou não saindo. Comi PRACARAAAALHO. Dormi PRACARAAAAALHO³³³³. 

Daí ok, como a boa nerd que sou, me inscrevi pra fazer um curso no período das férias, e voltei pra Porto Alegre uma semana antes por conta disso.

(Um parênteses: na viagem de volta pra POA, vim sentada ao lado de uma senhora, que passou o caminho inteiro cheirando um limão. Você não entendeu errado. Ela tirou um limão da bolsa, cravou a unha na casca pra arrancar um pedacinho, e aproximou do nariz. E repetiu o ...procedimento... diversas vezes ao longo da viagem. Me disse que o cheiro evitava enjôos. ok. O cheiro do limão impregnou o ônibus inteiro, mas tentei olhar pro lado positivo e, melhor aguentar cheiro de limão, do que a senhora vomitando do meu lado).


~~~~~~ Em Porto Alegre ~~~~~~ 

Os dias que passei em Caxias foram dias de chuvas intensas na região de Porto Alegre. Choveu forte em Caxias também, mas em Porto Alegre, e nas imediações, alagou TUDO. 
Na noite em que voltei, casualmente não chovia. Ainda. 
Cheguei em casa, cansada. Larguei minhas coisas. Desfiz as malas. E logo começou a chover outra vez. TORRENCIALMENTE.
Não demorou muito tempo, e ficamos sem energia elétrica. Usei o flash do celular como lanterna, em busca de velas. Tudo ok. Tava um frio do cacete, acendemos a lareira também. 

"Ah... pelo menos ainda tenho bateria e 3G", pensei. 
Só que a luz não voltou mais. não voltou até de manhã. Tchau, plano de dados... tchau bateria. Oi, tédio. Tudo bem. Não foi tão ruim assim.

Os dias foram passando. Continuou chovendo.
Acumularam-se QUILOS de roupa pra lavar. E a lavadora de roupas estragou. 
Bora esfregar tudo no tanque... rereeeeeeeeee rereeeeeeeeeeee.... 
Umidade no ar não deixa nada secar.


Concluí meu curso. As chuvas amenizaram... não chove a 3 dias.

Fim de semana, véspera da volta as aulas da faculdade, início do próximo semestre. (no caso, hoje).
Não tem nada em casa, preciso cozinhar pra voltar à rotina de levar a bolsa térmica com meu almoço. Primeiro, preciso ir no mercado. Mas tô com uma preguiiiiiiça!

Deixa a preguiça de lado, Valeska. Vai no mercado.

Fui.

Na volta pra casa, o que aconteceu????

Fiquei trancada pra fora. Na rua. Cheia de sacolas do mercado.

COMO ASSIM? Pois bem...

Coloquei a chave no portão, como de costume. 
Girei. 
A fechadura fez *clic*
O portão não abriu.
A chave se recusava a girar de volta. Se recusava a girar pra qualquer direção.
A chave se recusava a sair de dentro da fechadura.

EMPERROU!

FODEU.

Ninguém em casa.
Toquei o interfone de todos os vizinhos. 
Ninguém. atendeu.

Parei estranhos na rua pedindo ajuda. 
As pessoas tentaram, ninguém conseguiu fazer a chave sequer se mover.
E ADIVINHA???????

Começou a chover de novo. 

NA RUA, NA CHUVA... só falta a fazenda e a casinha de sapê.

Fiquei embaixo da pequena marquise até a chuva dar uma amenizada, separei a chave emperrada do resto do molho, deixei lá, e fui atrás de um chaveiro.

Eu fui em TRÊS CHAVEIROS DIFERENTES. Todos fechados.
Porra, é sábado, tu queria o que???

Nesse ponto eu já tava obviamente com os pés encharcados.
Um filho da puta passou voando com o carro por uma poça e me deu um banho.

Lembrando que eu fiz todos esses esquemas ainda carregando as minhas compras do supermercado pra lá e pra cá. Tava pesado aquela merda!!!!

Voltei pra frente do prédio já sem esperanças. A chave continuava lá, emperrada.
Tentei novamente o interfone. Até que um vizinho atendeu.

E desceu pra abrir o portão pra mim.

OBRIGADA, VIZINHO DO 201 CUJO NOME NÃO SEI, MAS JÁ CONSIDERO PACAS!!!!

Graças à boa ação do nobre vizinho, cá estou, dentro de casa, redigindo esse post "maravilhoso" pra vocês. Porque todo dia tem uma merda!

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Adaptação: mês 1

Hey pessoas!
A pouco mais de um mês, vocês bem sabem, minha vida virou de cabeça pra baixo.
Deu uma sacudida.
E agora, as coisas começaram a assentar. 

O que mudou?

Ora, mas que resposta óbvia, absolutamente tudo mudou!
Deixa eu contar pra vocês algumas primeiras constatações e fatos desse primeiro mês, no qual Porto Alegre me engoliu.

Fui amorosamente acolhida para morar na casa da "vó". Aspas, porque minhas avós de sangue já se foram a algum tempo, mas eu tenho uma vó postiça que está fazendo um ótimo papel de vó, me acolhendo no seu ap e tudo mais.

O ap da vó é pequenino, mas aconchegante. Tem só um quarto, que é o quarto da vó, o que faz com que meu quarto seja a sala de estar. E minha cama seja uma poltrona-cama. 
Mais ou menos assim:


O que pra mim está excelente, afinal, eu não estou nem pagando aluguel nem nada. Tenho cobertas quentinhas e um teto em cima da cabeça. Está tudo maravilhoso.
Vou ser hipócrita e dizer que não sinto falta da minha cama? Claro que não vou. Minha cama de casal, com meu colchão maravilhoso, vive no meu coração e me espera com todo seu conforto, na casa dos meus pais.

A vó, como a maioria das vós, nunca foi adepta de internet, logo, foi uma das primeiras coisas a se providenciar. Demorou um mês desde a data de contrato, até a data de instalação. Rendeu muitas, muitas, MUITAS ligações pro telemarketing da GVT, mas enfim tudo foi resolvido.

Aprendi o caminho de casa até a universidade, até 3 supermercados diferentes, até o banco. Tem absolutamente tudo perto de casa. Tem farmácia, tem bar, tem restaurante. Tem parque, tem açougue, tem lojas de roupa. Tem bazares, ópticas e relojoarias, e até funerária. O bairro tem tudo. Tudo. Tem ônibus praticamente na porta de casa. Aprendi a pegar ônibus. Me caguei pra me aventurar de ônibus sozinha da primeira vez que o fiz lá, mas já peguei tantos ônibus agora que está tudo bem. Fiz meu vale transporte estudantil pra pagar meia passagem.

Nas primeiras semanas, enquanto eu ainda não tinha o vale transporte, estava acordando um pouco mais cedo pra ir pra universidade a pé. Em um belo dia, começou a chover torrencialmente enquanto eu estava no meio do meu trajeto. O que alagou alguns trechos, e encheu outros de lama. Pra minha "sorte", eu estava usando um vestido, e calçando havaianas. Porque minhas pernas e pés ficaram cobertos de barro. Entrei na universidade, me dirigi até o banheiro, e lavei meus chinelos na pia. Com um bolo de papel molhado, dei um banho nas minhas pernas. Fiquei aparentemente limpa, e segui a vida, o resto do dia assim. Mas louca pra tomar um banho de verdade.

Ora Eka, mas se dá pra ir a pé pra universidade, porque tu não o faz sempre? Porque pega ônibus?

Dá pra ir a pé, mas não quer dizer que seja agradável. 

A caminhada de casa até a universidade dura cerca de meia hora. 
O trajeto é alvo de múltiplos assaltos, diariamente. A universidade fica em um "complexo estudantil", que abriga, além da UFCSPA, alguns prédios da UFRGS. Também abriga o hospital da Santa Casa. E é próximo ao parque da Redenção. A circulação de pessoas pela área é grande, assim como a circulação de assaltantes, prontos para ~atacar~. (Conheci várias pessoas que carregam consigo o "celular do ladrão". Se tu for assaltado, tem que ter contigo um celular "a mais", pra dar pro ladrão. Um celular extra, velho, sem chip, sem tuas informações pessoais, só pra satisfazer o ladrão, e não perder o seu celular "verdadeiro".) Só o que não há é circulação de viaturas para conter o grande numero de assaltos. Aliás, há um grande movimento estudantil que solicita maior policiamento na área. Temos um abaixo assinado, com o qual você, você mesmo, pode contribuir. Por favor, contribua. Não custa nada. Não quero ser assaltada. Obrigada.

Além de o trajeto ser perigoso, ele também fede. Sim, Porto Alegre fede. Há uma enorme quantidade de moradores de rua, dormindo em todas as calçadas ao longo do caminho. De manhã cedinho, quando saio de casa, eles ainda não acordaram. Mas a rua tem cheiro de xixi. E já me deparei com vários... vômitos, na calçada. Também tem muito lixo espalhado, e restos de comida pelo chão. Então, a caminhada não é nem segura, nem agradável. Acho que a limpeza de Caxias me deixou mal acostumada, embora na minha visão o ideal é de que todos os lugares fossem... limpos, eu sei que na maioria esmagadora dos lugares, não é assim. Ao menos pude constatar isso pelas cidades do Brasil que já tive a oportunidade de conhecer. Nenhuma é tão limpa quanto Caxias. Porto Alegre, definitivamente, não é.

Acho que Caxias me mal acostumou também com a "fartura italiana". Interior do Rio Grande do Sul tem muita agricultura. É possível comprar verduras e legumes em abundância, com uma qualidade excelente a um preço baixo, diretamente com o produtor, nas feiras do agricultor. Come-se MUITO bem na serra, meus quilinhos a mais não me deixam negar. Em Porto Alegre, é difícil encontrar bons itens de hortifruti. Os "exemplares" são definitivamente pequenos, e caros. Muitas vezes, não se encontra certas coisas, ou o estado de conservação dos vegetais é tão deplorável, a um preço tão absurdo, que simplesmente não dá pra comprar. O supermercado mais próximo passou mais de uma semana sem leite nas prateleiras. Nem sequer uma caixa. Nem ovos. As vezes também não tem pão. Talvez seja um problema de administração desse supermercado em específico... provavelmente seja. Mas a questão dos vegetais, é em todo lugar que fui.

Mas vamos falar de coisa boa. Vamos falar da universidade!!! A universidade é só amor!



As pessoas foram/são extremamente acolhedoras e simpáticas. O curso é integral, o que quer dizer que chego na universidade de manhã cedo, e saio no final da tarde. O que quer dizer que passo praticamente todos os meus dias inteiros com as mesmas pessoas, que vim a conhecer muito rápido, e que criamos um vínculo por isso. Todos nós estamos lá, "sofrendo" as mesmas coisas, submetidos à mesma carga IMENSA de conteúdo pra estudar, trabalhos pra fazer, e tudo mais. Isso, de certa forma, nos uni. Temos veteranos que, um ano atrás estavam vivenciando exatamente a mesma coisa que nós, e se disponibilizam a ajudar. e doar materiais, e orientar, e a serem as pessoas mais receptivas do lugar. 
Um ANO, sim, não semestre. A universidade tem matrículas anuais. Cada ano é uma "série", e cada série tem o seu grupamento de disciplinas correspondentes. A gente não escolhe em quais disciplinas quer se matricular. A gente é automaticamente matriculado na série correspondente. O que quer dizer que somos automaticamente matriculados em todas as disciplinas correspondentes àquela determinada série. O que quer dizer, nesse primeiro período, 12 disciplinas. Sim. DOZE DISCIPLINAS. Não temos escolha. São 12, ou nada.

Sabe quantas disciplinas eu cursava na FSG? Três. Quatro, quando o dinheiro dava. E eu trabalhava feito um cão pra dar conta de pagar por essas disciplinas, correspondentes a 3 manhãs de aula, que consumiam o meu salário. Vocês já estão cansados de saber.

Sabe quanto eu estou gastando agora, pra cursar 12 disciplinas, correspondentes a 5 dias de aula, período integral...? Absolutamente nada! :) 

Também não estou trabalhando mais. Ou não voltei a trabalhar ainda, como preferir. Porém, a universidade oferece assistência estudantil, uma ajuda de custo para estudantes que não tem renda pra se manter, não deixarem de estudar por isso. Ou seja, a gente além de não pagar pra estudar, recebe pra isso. A universidade também disponibiliza bolsas, diversas bolsas, também remuneradas, pra estudantes que quiserem fazer algum trabalho extra dentro de programas da própria instituição.

Quanto à estrutura física da universidade, não tenho do que me queixar. 
Aliás, tenho sim, nós não temos RU. A falta de um restaurante universitário pra alunos que, como eu, passam manhã e tarde na universidade e precisam almoçar em algum lugar por lá é uma questão a ser discutida à parte. Não temos RU, mas dizem que... a construção de um está nos planos da reitoria. Planos esses que não serão realizados tão em breve assim, porque houve um corte do governo na verba destinada à educação. Mas ok, a FSG também não tinha RU.
A alternativa que os estudantes encontraram pra isso, foi a aquisição de microondas para o espaço coletivo que temos junto ao DCE. Muita gente, eu inclusive, adquiriu bolsinhas térmicas para transportar seu próprio almoço, esquentar nos microondas, e almoçar por lá mesmo, no espaço coletivo. Espaço esse que aliás é bem acolhedor, temos sofás, 2 violões, 2 mesas de sinuca, e 2 mesas pra comer. O lugar pra sentar em uma das mesas e almoçar é concorrido, mas dá-se um jeito, ninguém deixa de almoçar por isso.
Quanto ao reeeeeesto da estrutura física, eu não tenho do que me queixar. 
Temos catracas com identificação biométrica para conseguir acessar os prédios, o que quer dizer que, apesar da zona ser perigosa, lá dentro é seguro. Temos elevadores que falam. Temos DOIS ar-condicionados na sala, que nem é tão grande assim. Não sei vocês, mas nenhuma das particulares em que estudei (ucs e fsg) tinham isso.
 Temos constantes reformas, banheiros novos estão sendo construídos. Temos laboratórios super bem equipados em cada uma das suas especificidades. Temos uma biblioteca voltada exclusivamente para cursos da área da saúde (obviamente, afinal esse é o foco da universidade). 
Temos professores excelentes. Temos um nível de cobrança fora do comum. Temos que atingir média 7, no mínimo, se quisermos ser aprovados. E não é fácil, cara. Não é fácil. Os professores querem que tu saiba o que tu tem que saber, e não estão nem aí se tiverem que te rodar pra isso. 
Aliás, a forma que eles querem que tu estude também é diferente da particular, na minha concepção. Na FSG, eu só estudava pras provas pelos slides dos professores, praticamente. As vezes o google dava uma ajuda. E ia super bem em tudo. Na UFCSPA, os professores querem te fazer pesquisar e engolir os livros da biblioteca. Vai estudar. Vai procurar a informação. Te vira. Cada um se entende melhor com a explicação de um autor, então tu tem que ler vários, procurar, se adaptar, construir o teu próprio conceito, em vez de pegar ele pronto no slide.

Os colegas também são diferentes, em termos de participação. Não sei porque motivo, não sei se é questão de cultura local, não sei explicar porque. Na federal, os alunos são mais participativos. Muitas vezes, na particular, o professor ficava num vácuo, num monólogo constante a aula inteira. Ninguém questionava. E quando o professor fazia uma pergunta qualquer, ninguém se manifestava. Em diversas situações, eu era a única que me manifestava, ou questionava algo. 
Os colegas da federal questionam. Debatem. Dão opinião, e se interessam pelas opiniões diversas. As pessoas por lá tem a cabeça mais aberta. Ninguém se importa se tu vai pra aula com qualquer roupa que estiver afim, de chinelo, ou bem arrumada. Ninguém se importa. Ninguém se importa se tu vai pra aula de ônibus, a pé, de carro, ou de bicicleta. As pessoas, aliás, usam muito a bicicleta como meio de transporte. Vá como quiser. Vá como preferir. Acho que isso é uma coisa da cidade em si. 

Em Porto Alegre tu encontra gente de todo tipo. Meninas "menininhas", meninas de cabeça raspada, meninas que não querem se depilar. Gente maquiada, gente de cara lavada. Caras com barba, sem barba, de cabelo curto, comprido, com dread. Tem gente com todos os tipos de roupas, das mais comuns e arrumadinhas, às mais hippongas. Ninguém se importa com isso, ninguém repara no seu jeito, no jeito que você se sente confortável sendo. Ninguém se importa se tu quer ficar com um cara, com uma guria, ou com os dois. Ninguém se importa se tu é gordo ou magro. Ninguém se importa. Seja você, seja como és, e seja feliz assim. O mundo está ok com isso. Todos estão ok com isso, e ninguém fica reparando em você, ou te olhando diferente por isso. A diversidade está aí pra ser vivida e amada.

Em Caxias todo mundo é igual, todo mundo "tem que" ser igual. As pessoas reparam na sua roupa, no seu cabelo, no seu estilo de vida. Em Caxias, se tu tem cabelo diferente, só pode ser lésbica. Se tu usa uma roupa diferente do que todo mundo usa, CREEEEDO! Em Caxias, DEUZOLIVRE tu ir pra universidade calçando havaianas. Em Caxias DEUZOLIVRE tu ir pra faculdade de bicicleta. Na terra da polenta, todos tem que usar sapatos bonitinhos, e ir pra aula de carro. No máximo pegar um ônibus. Caxias é uma cidade... quadrada. E se você não se encaixa no quadrado, ache um jeito de se disfarçar.

Enfim, pessoas. Já escrevi tantas coisas que nem sei mais. Meu período de adaptação tem sido ok. Estou definitivamente feliz com a mudança de vida, e com o crescimento pessoal que isso tem me proporcionado. Ainda tenho MUITO dessa cidade pra descobrir. A começar pelos nomes das ruas, as pessoas me contam onde moram AND I HAVE NO FUCKING CLUE WHERE THE HELL IT IS! (eu me expresso em inglês quando fico meio puta da cara... desconsidere). Também ainda tenho muito a aprender no quesito frugalidade. Preciso aprender a gastar dinheiro com o que é essencial. E fazer o dinheiro dar pra tudo. Não tem mais papai pra fazer as compras do supermercado pra mim. Não tem mais mamãe pra arrumar minha cama, mesmo eu falando que não precisa. Já tava na hora, né?

Vou ficando por aqui, mas indico outro texto que tem TUDOAVER, e que tive o prazer de ler por esses dias, e que... tem tudoaver. É pra clicar, tá? É preciso ir embora!

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Absorvendo mudanças a doses homeopáticas

A vida. A vida tem dessas coisas mesmo. Um dia a gente reclama da rotina, reclama da falta de grana, reclama que ela não muda. Que ela parece que parou, sentou-se confortavelmente e lá permaneceu. Na zona de conforto. E se a zona de conforto não fosse de fato confortável, assim ela não se chamaria. A zona de conforto é o arroz branco, o pão com manteiga, é aquilo que não é a melhor opção do mundo, mas é gostoso, é ok, é uma escolha segura. Só que um dia você tem vontade de provar comidas que nunca comeu antes. E no caso de mudanças na vida, isso significa abandonar o pão com manteiga. E se o novo sabor não for tão "de casa" quanto? Mas ele parece tão atrativo... tão cheiroso...

Essa analogia com comida tá estranha. Acho que estou com fome...

2015 tinha tudo pra ser um ano "pão com manteiga". Assim foi 2014, e tinha tudo, absolutamente, para continuar assim. Eu mesma não esperava grandes mudanças. Não senti diferença nenhuma quando o ano virou, continuei na minha casa, na minha cama, fazendo as mesmas coisas, indo pros mesmos lugares, reclamando dos mesmos problemas. De 31/12 a 01/01, não houve nem cocegas.

Acho que a ultima grande mudança que ocorreu na minha vida foi em 2013, quando eu fiz as contas e percebi que conseguiria converter o meu salário em uma mensalidade do semestre da faculdade de fisioterapia. Segurem esse pensamento. 

Esse blog existe desde a época que eu saí do ensino médio, e meio que acompanhou todo o processo de tentativas e fracassos da minha vida acadêmica até então praticamente nula. Períodos de letargia, ingresso em curso aleatório só pra me sentir parte de algo (eu estudei publicidade e propaganda um tempo, alguém aqui lembra disso?), mais um pouco de letargia. E nesse meio tempo eu aprendi inglês. E depois de um tempo comecei a dar aulas de inglês. E enquanto isso eu fiz alguns vestibulares em vão, sem grandes esforços, novamente, pra me sentir parte de algo. Eu fiz enem não uma nem duas, mas quatro ou cinco vezes. Eu me inscrevi e não fui fazer a prova um ano desses. Eu dizia pra mim mesma que eu estava tentando. Eu fiz um ano de curso pré vestibular. Eu fui pra Campinas. Eu tentei conseguir uma vaga na Unicamp, pra fonoaudiologia, curso pelo qual eu novamente não demonstrava grandes paixões, mas queria me sentir parte de algo. Também não aconteceu. Eu tentei usar a nota de um desses enem(s) aí que eu fiz ao longo desses anos, pra entrar em uma universidade pública. Não consegui. Parecia que eu não estava me esforçando o suficiente. Parecia que por mais que eu dissesse pra mim mesma que estava me esforçando, não era suficiente.

Um belo dia eu peguei aquela matrícula da publicidade, trancada a anos, e resolvi transferi-la para outra faculdade, para outro curso, a fisioterapia. E esse foi o último "big step" que eu dei. E foi um passo grande e certeiro. Me apaixonei pelos conteúdos estudados, me apaixonei pelos professores, voltei a sentir sede pelo conhecimento, e fiz amizades que vou levar pro resto da vida. Aprendi coisas que jamais imaginei que um dia eu saberia. Voltei a me sentir desafiada, voltei a me sentir inteligente. Acordei da letargia. As pessoas me admiravam, me diziam que eu era inteligente. Tudo estava lindo. 
Na vida, uma coisa leva a outra, ela não para. Por mais que a gente tente se sentar e descansar confortavelmente na nossa zona, por um tempo, quando as coisas parecem ter alcançado um patamar agradável, a vida não nos deixa parar ali por muito tempo não. Ela vem e cutuca a gente avisando que é hora de levantar, que é hora de dar mais um passo.

Os semestres foram passando, as amizades se consolidando, a rotina se estabelecendo, e os reajustes de mensalidade sendo feitos, semestre após semestre. Até que em um dado momento, eu percebi que se a correnteza continuasse seguindo esse mesmo fluxo, em um futuro muitíssimo próximo o meu salário não seria mais suficiente para ser convertido em uma mensalidade do semestre do curso de fisioterapia. E eu ainda estava tão loooonge de me formar! 
Comecei a cogitar alternativas: eu poderia arrumar um emprego dentro da faculdade, o que me daria desconto na mensalidade. Mas pra isso eu teria que sair do meu emprego atual, deixar os meus alunos que gosto tanto! Ou eu poderia parar de estudar por um tempo e juntar uma pequena poupança. Essa alternativa pareceu pouco esperta, os reajustes ainda viriam, eu estudando por aquele período ou não. E pararia de saciar minha sede por conhecimento. Não parece uma boa opção. A alternativa perfeita seria uma bolsa de estudos, mas como conseguir? A única forma que a instituição disponibilizava, era através do Prouni. E pra isso eu teria que fazer o enem outra vez. Outra vez. Mas eu estava ficando sem alternativas, então... porque não? Porque eu não consegui uma vez? Ou duas? Ou três? Mas eu me sentia tão mais inteligente agora! Meu copinho de conhecimento estava meio cheio, não mais meio vazio. Me inscrevi e fiz a prova outra vez.

E aí os meses passaram, e a vida seguiu sua rotina. Vocês sabem como essas coisas funcionam, a nota demora meses pra sair. Quando o resultado finalmente saiu, a minha média ficou acima da média nacional. (sempre é, mas nunca pareceu o suficiente). Eu resolvi que já que tinha feito a prova de novo, eu ia tentar fazer absolutamente tudo que fosse alternativa com essa nota. Ela era a minha única saída. Não só tentaria conseguir uma bolsa de estudos integral pelo Prouni na faculdade particular em que me encontrava, como também faria inscrição no Sisu, que é um programa que disponibiliza algumas vagas em universidades públicas, classificando os candidatos inscritos pela nota obtida no enem.

Me inscrevi no Sisu, e joguei os dados. Fiz as minhas apostas mais altas: UFCSPA (Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre), que recentemente foi avaliada como possuidora do melhor curso de fisioterapia do Brasil, e UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) também em Porto Alegre, que é o sonho de consumo de todo bom estudante gaúcho. Não custa tentar, né? Porque não?

Fiquei acompanhando as notas de corte diariamente, quando eram atualizadas. A minha média estava acima da nota de corte. De ambas as universidades. Eu não conseguia acreditar no que os meus olhos estavam vendo, mas resolvi não colocar muita expectativa, mais pessoas poderiam se inscrever ainda. Mais pessoas com médias melhores, que poderiam jogar a minha para uma posição mais abaixo. No penúltimo dia de inscrições, eu ainda estava dentro. E quando as inscrições terminaram e eu achei que finamente saberia o resultado final... ele só seria divulgado dali uma semana.

Passei essa semana tendo pequenos ataques de pânico. Nessa mesma semana, reencontrei amigos queridos da faculdade. E fomos pra Porto Alegre no show do Foo Fighters. Eu tava com um pressentimento bom, de que aquela cidade me traria coisas boas. A cidade já estava me fazendo feliz, com aquele show. Cês leram o post que vem antes desse, não leram? Então, foi um dia surreal. E depois disso eu continuei esperando. Achei que até o prazo final com certeza mais alguém se inscreveria. Com certeza eu cairia pra lista de espera. Mas VAI QUE alguém desiste da vaga, e me chamam à partir dessa lista, né? Vai que... eu tinha um fiozinho de esperança.

Hoje, eu recebi um e-mail com a seguinte mensagem:


QUÊ?

Fui conferir o meu boletim e... 



Eu fui aprovada na primeira chamada. Na UFCSPA. No melhor curso de fisioterapia do país.
Eu vou estudar de graça! Eu não vou mais ter que converter meu salário em mensalidades!
Eu também não vou mais ter um salário, porque vou ter que deixar meu emprego. E minha atual faculdade. E meus amigos. E minha casa. Vou deixar essa cidade pra trás. E ser chutada sem cerimônia alguma, pra fora e bem pra longe da minha atual zona de conforto. Chegou o momento do próximo "big step" dessa velha resmungona chamada vida, ela, que não nos deixa ficar parados. Deu pra ti, baixo astral. Vou pra Porto Alegre, tchau!

Eu ainda não absorvi totalmente a mudança. Estou absorvendo aos poucos, a doses homeopáticas. E tentando não ter um ataque de pânico, nem me sentir desnuda e vulnerável. O prazo para a matrícula é curto, então imediatamente (assim que consegui parar de tremer e chorar e olhar fixamente para o meu nome na lista de aprovados) comecei a reunir a documentação necessária para a matrícula. Fui até a minha atual faculdade cortar o vínculo, cortar o cordão. Fui até o meu trabalho conversar com o meu chefe sobre a minha eventual mudança de cidade e incapacidade de continuar trabalhando ali. Fui tirar fotos 3x4 atualizadas. Desencavei o meu histórico escolar do ensino médio, para comprovar o fato de ter estudado sempre em escolas públicas. Recebi tantas, incontáveis mensagens de apoio, e abraços, e comentários, e ouvi muitas outras pessoas me fazendo perguntas que eu não sabia responder. Que eu ainda não sei responder. 

Onde tu vai morar? Com quem tu vai morar? Como tu vai se lovomover? E de noite, não é perigoso? Que turno tu vai estudar? Integral? Como tu vai trabalhar então? Como tu vai se sustentar?

Eu não sei. Eu ainda não sei de nada. Absolutamente. Cortei vínculos imediatamente com as pendências que tenho nessa cidade, de forma rápida e indolor, como quando se arranca um bandaid. Tudo de uma vez pra doer menos. Rápido, pra não dar tempo pra pensar em mais nada. Pra não dar tempo de desistir.

A única coisa que eu sei é que quando a vida te dá a oportunidade de estudar o curso que tu quer estudar, de graça, na melhor instituição do país, tu simplesmente vai. O resto depois se dá um jeito. Certas coisas, não se pode recusar. De certas coisas não se pode recuar.


ESSE POST do fim de 2014 é a prova do quanto eu estava insatisfeita, e precisando virar o jogo. Aí está, como eu mencionei que aconteceria... "uma hora o jogo vira"... pois bem, VIROU!