quinta-feira, 21 de abril de 2016

Um cafofo pra chamar de meu

Olá bonitos e bonitas. Tudo bem com vocês? Então tá bom. 
Comigo? Ah, comigo tá tudo ótimo! Quer dizer... bom, boooom, BOOOOOM assim não tá, mas tá bem melhor, tá bom. É, tá bom.
Quero saber se vocês se lembram desse post.
Nesse post, a Eka de um passado não tão distante disse umas verdades pra si mesma, que vou transcrever aqui pra facilitar e dar o gancho pra esse texto aqui, tá bom assim?
Então...

 "Estou sem perspectivas pra 2016. Eu sei que vou voltar pra Porto Alegre. Eu sei que vou voltar pra UFCSPA. Eu sei que vou voltar pra rotina trabalhosa e cansativa. Só não posso deixar ela me engolir. Nem quero voltar a me anular. 
Preciso arrumar uma maneira. Preciso dar um jeito de morar em outro lugar. De ter um pouco mais de liberdade. De privacidade. Preciso ter a liberdade de deixar uma baguncinha pra lá quando não estiver afim de arrumar. De almoçar fora quando não estiver com saco de cozinhar as 10hs da noite, pra levar marmita no dia seguinte. 
Preciso ter um tempo pra mim e FOR THE LOVE OF GOD....... preciso levantar essa bunda gorda e por ela pra fazer exercícios. Lembra do prazer que era aquela bomba de endorfina depois de uma aula de spinning, Valeska? Lembra como aquilo era gostoso? A quanto tempo tu não sente isso? Não tá legal esse sedentarismo. Não tá legal essa rotina, em que o ponto alto do dia é se encostar num sofá qualquer pra conseguir dar um cochilo. Não tá legal. Quero voltar pra universidade. sim. Mas não quero voltar pra essa rotina na qual não existe EU."
Então!!!

O que acontece é que depois disso, a Ekinha fez várias buscas, várias pesquisas, vários contatos, em busca de um apê. Foi/voltou de Caxias a Porto Alegre e vice versa algumas vezes, pra olhar apês que pareciam "o lugar perfeito". Deu com os burros n'água algumas vezes. (ainda se usa essa expressão? não, né... bom, quer dizer que tomou no cu, de um jeito mais sutil. Isso.).
Acontecia mais ou menos assim:

"MEU DEUS ENCONTREI O ANUNCIO DO APÊ PERFEITO, VOU LÁ VER!"
 Acerta com os responsáveis, vai pra Porto Alegre ~~~
 Leva bolo da pessoa que ia mostrar o apê, que diz que "quando puder avisará", e nunca mais ~~~
 Volta pra Caxias decepcionada sem nem olhar o apê e achando até bom pq essas futuras roommates  são cuzonas que dão bolo nas pessoas ~~~

Mais um tempo passa, Eka continua procurando, vasculhando, procurando anúncios. Eka até acha uma miga que quer dividir apê também, e cês passam a procurar juntas.

"MIGA ENCONTREI O APÊ PERFEITO VAMO LÁ OLHAR!"
 Lá vai Eka e a miga olhar o apê, fala com os responsáveis, marca data, vai, é recebida, tudo  maravilhoso, lindo, perto da faculdade, e aí o apê era tipo, UM LIXÃO. E caro demais pra um lixão,  na boa.
Volta a Eka decepcionada pra Caxias achando que nunca vai achar um apê decente a um precinho legal.

Volta o ano letivo. Volta a Eka pra velha poltrona em que dormiu todo 2015, pro apertamento, o lugar que não lhe pertence, pra velha rotina da qual já estava de saco cheio.

Passam dias, passa o mês, continua a busca. A miga que ia dividir contigo aparentemente se arranja em outro lugar, pq não toca mais no assunto. Ok, then... continuamos na busca.

Até que um belo dia...

Numa bela manhã de sol...
(mentira, era noite)

Outra miga chega pra mim e fala:

MIGA SUA LOUCA, ACHEI UM APÊ PRUCÊ MORAR!!!!!!
(tá, não foi exatamente assim, eu acho... mas é assim que eu me lembro)

E a miga me manda fotas do apê e ele é LINDU, e eu falo com uma mina que já mora lá e É MARA, e eu pergunto o precinho e ele é SUPER OK, e eu pergunto a localização e é PERTO DA FACULDADE, e eu pergunto se ainda tem vaga pra uma pobre estudante homeless e TEM DOIS QUARTOS VAGOS, e eu pergunto quando posso ir conhecer e PODE IR CONHECER AMANHÃ MESMO, e eu vou finalmente conhecer o apê e MEU DEUS, É ISSO, QUERO! OMG, ACHEI CASA!

Foi mais ou menos assim que aconteceu. É. Só que demorou coisa de um mês desde o dia que eu fui olhar o apê, até o dia que eu de fato me mudei pro apê. Pq tinha que levantar uns pilas pra pagar o aluguel né, lembra que sou estudante homeless pé rapada né.

Mas deu tudo certo

TENHO UM CAFOFO PRA CHAMAR DE MEU! OMG!

Não fazem nem duas semanas que estou habitando o cafofo novo, no momento em que lhes escrevo essa postagem. Terminei a mudança, que consistia em um armário, uma cadeira, e duas malas de roupa. E livros. E comida. Tiveram algumas turbulências, still settling down, mas tá um milhão de vezes melhor. Already! Uma outra hora dessas conto pra vocês. Quando tudo tiver do jeito que tem que ser, eu posso até fazer um "antes e depois", como era, como é. Vejam vocês que estou aguardando algumas mudanças positivas, que tão pra acontecer.
Ah... as roomies são super deboas e gente fina pacarai.
Por enquanto é isso que queria contar pra vocês à respeito do cafofo.

AHHHH... e pertinho tem uma academia que já fui conhecer, e lá TEM SPINNING, BITCH!!!!!!!!!!!!!!

QUERO! MUITO! PRECISOOOOOOO!!!!
Acho que vai rolar. Não sei exatamente o que estou esperando pra ir lá fechar a inscrição, me deem aquele empurrão, fassavor! Tô precisando!

Para não dizer que estou total e completamente sedentária, ainda... comecei a fazer yoga num projeto da universidade. 
Eu. 
Yoga. 
Eu que sou a pessoa mais sem flexibilidade do mundo. 

E ESTÁ SENDO MARAVILHOSO! 

E é 1 vez por semana, mas já é algo, um tempinho que dedico exclusivamente pro meu bem estar físico e mental. 

E sobre as comidas, Eka? Ainda tá cozinhando tarde da noite pra ter o que por na marmita do almoço do dia seguinte?

 NOT ANYMORE!!!!

Não, eu não tô RYCA pra comer fora todo dia.
Não, a UFCSPA ainda não tem RU.

Mas eu descobri os prazeres d'O BANDEJÃO da Santa Casa!!!!


Foto meramente ilustrativa.

Nem é tão ruim assim, o bandejão. É bem amistoso, a maioria dos dias.
Repete feijão e arroz todo dia? Repete. Mas troca o outro carboidrato sempre.
Não é tão barato quanto um RU, nem tão caro quanto um restaurante. Super viável!
E com toda certeza do mundo, infinitamente melhor que levar marmita.

Tá, vou por uma foto real de um dos dias melhores, pra vocês verem que não é tão ruim assim:



Things are getting better, guys... a Eka de um passado não tão distante ficaria feliz de saber que as coisas realmente iriam melhorar em breve. E a Eka do presente sabe que podem e que vão melhorar mais!

First day at the CAFOFO

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Virada nostálgica

Cá estamos nós, em 2016. Mais um ano que se inicia, mais uma página da nossa vida, pronta pra ser escrita, bla bla bla.

Quando eu era criança, todo ano, passava as festas de final de ano na casa da minha avó paterna, em Guaporé. Nunca chamei a vó de vó. Era a casa da Nona. Família italiana não tem vó, tem Nona!

A Nona ainda morava na mesma casa onde meu pai e os irmãos cresceram. O vô, o Nono, eu nunca cheguei a conhecer. Faleceu quando o pai ainda era bem novo. 

Desde que eu me conheço por gente, a Nona morava lá, com a tia Lila. Tia Lila viveu a vida toda com a Nona, nunca saiu de casa. E desde que eu me conheço por gente, feriadões de páscoa, natal e ano novo, a gente passava na casa da Nona. Eu, o pai, a mãe, o meu irmão. Tios, primos, vários raminhos da família, que eu não sabia ao certo qual era o grau de parentesco.


Essa, é a casa da Nona. Só o andar debaixo. Em cima morava outro raminho da família... mas as minhas lembranças de infância são todas no andar debaixo. 

Lembro que toda vez que íamos pra casa da Nona, a mãe tinha que colocar na mala uma caixa de band-aid, e um vidro de mercúrio (o precursor do merthiolate, na época em que ele ainda ardia... aquele vermelho/alaranjado, que deixava manchas na pele, no lugar dos raspões, arranhões e machucados). Na casa da Nona, eu brincava na calçada... que naquela época não tinha nem calçamento. Na casa da Nona eu SEMPRE ralava os joelhos, ralava os cotovelos, vivia cheia de roxos pelas pernas, que nem sabia de onde tinham vindo. 

Nos fundos da casa da Nona, tinha o banheiro, do lado de fora. Depois de um tempo e uma reforma, construíram outro banheiro lá dentro, também. Nos fundos da casa da Nona tem terra, tem plantas, tem horta. A gente catava ameixa e guabiju direto do pé. Cereja, pitanga, jabuticaba. Temperos... sálvia, alecrim, funcho, hortelã... aprendi qual era qual, o formato da folha, o cheiro, o gosto de cada um. 

Na rua onde fica a casa da Nona, eu corria, eu me sujava, eu sentava no chão, de pijama, de noite. Não tinha portão nem grade, eu pulava a janela da sala pra entrar e sair, pra não ter que dar a volta pelos fundos. Eu corria, e andava de bicicleta. E numa dessas, a roda da bicicleta derrapou nos cascalhos da rua, e eu caí. E passei o resto da semana com manchas de mercúrio nas palmas das mãos, e nos joelhos, onde tinha me ralado e cortado. Meus joelhos carregam até hoje as cicatrizes desse tombo. Em outro tombo, na mesma rua, na mesma bicicleta, a roda dessa vez ficou emperrada em um buraco, o impacto me jogou pra frente, caí por cima do braço direito. Fratura. 

A casa da Nona era o lugar onde a Eka criada em apartamento virava a Eka moleca. Lembro como se fosse hoje, da mesa farta nas ceias de natal, com todo mundo em volta. Mesa essa em que eu e minha prima nos escondíamos debaixo, pra roubar cerejas da decoração antes da hora do jantar. Como se ninguém estivesse vendo. Era secreto. Essa mesma mesa, amanhecia com cestas de chocolate no topo, nas manhãs de páscoa. Mas a Eka moleca já sacava tudo, e enquanto os primos mais novos dormiam acreditando que o coelhinho viria, levantava da cama de madrugada e trocava os bombons das cestas, separando pra si os seus favoritos, e deixando pros primos aquele maldito bombom de banana. Criança corrupta! hahah

Mas a Nona, a Nona nunca precisou de data especial pra manter a mesa farta. Não! Em seus tempos mais saudáveis, fazia questão de cozinhar tudo o que a gente gostava. E cozinhar MUITO! E muito, muito bem. Não há no mundo, comida como a comida da Nona. Era fartura do café da manhã ao jantar, com direito a petiscos nos intervalos. Na casa da Nona, eu acordava cedo. A casa acordava cedo. Também me lembro como se fosse hoje, de sentar na mesa da cozinha pra tomar um canecão de leite com nescau, pão caseiro, e chimias de todos os sabores, de todas as frutas. Queijos e salames coloniais, e manteiga feita em casa. Aliás, a Nona fazia chimias muito boas, também. Quando eu acordava, a nona e a tia Lila já estavam de pé, e o pai já tinha até saído pra buscar o jornal. E enquanto eu tomava meu café, as vezes a mãe aparecia na porta da cozinha, de camisola e com cara de sono, perguntando porque é que a gente levantava tão cedo. Se eu fechar meus olhos, posso ver a cena.

Depois que crescemos, cada um foi pro seu lado, e nunca mais passamos os feriados na casa da Nona. Visitávamos, sim. Cada vez mais esporadicamente. E a Nona me abraçava e chorava de saudades a cada visita. 
O tempo passou, a Nona adoeceu... acho que nunca contei aqui essa história. Contei? Não sei. Só sei que a Nona adoeceu, e durante algum tempo, não se sabia o que ela tinha. Até que quando se soube, era câncer. No colo do útero. Ela veio pra Caxias, morou lá em casa durante o tratamento, fazia radio e quimioterapia em Porto Alegre, o pai levava e trazia ela de lá todos os dias. A mãe cuidava da Nona como se fosse mãe dela mesma. Mas a nona, aquela mulher grande, forte e faladora, foi ficando fraquinha, emagrecendo. Como uma luzinha que se apaga aos pouquinhos. Ela se curou do câncer, sim. Mas estava fraquinha, e acabou falecendo pouco tempo depois. Faz cerca de 3 anos que isso aconteceu.

Tia Lila continua morando na casa onde o pai e os irmãos (meus tios) cresceram, agora sozinha. Depois que a Nona faleceu, aí sim que não teve mais festa. Passou um bom tempo, até que voltássemos pra lá. Acho que nos últimos 3 anos, eu fui pra lá uma única vez. Sem contar essa vez.

Passamos, eu e o pai, o finalzinho de 2015, a virada do ano, e os primeiros dias de 2016, na casa da Nona. Que agora é a casa da tia Lila. A cidade cresceu, a casa mudou. Agora tem portão, e grade nas janelas, não dá mais pra pular. Agora tem calçamento, e até movimento de carros na rua. Agora tem o quarto da Nona, com todas as coisas dela nos seus devidos lugares, porém vazio. E a mesa da sala de jantar, aquela que eu me escondia embaixo, esquecida no cômodo escuro. E os armários, cheios de louças que a tia Lila nem tem mais ocasião pra usar. E as paredes, com aquele ar de nostalgia, só de olhar. Esses dias me remeteram àqueles dias que se foram, e eu senti como se, a qualquer momento, a mãe fosse aparecer na porta da cozinha, de camisola, com cara de sono, perguntando porque é que a gente tinha levantado tão cedo. Como se a qualquer momento, eu fosse entrar na sala e ver a Nona sentada na sua poltrona favorita, fazendo crochê na borda de um pano de prato, vendo tv, ou tirando um cochilo. Ou então sentada na cozinha, do lado do fogão à lenha, cuidando uma panela.

A virada do ano foi de saudade e nostalgia. Mas foi longe de ser ruim. 

Não tem mais a Nona. Não tem mais a mãe. Não dá mais pra pular a janela da sala. Não tem mais a casa cheia, a mesa farta (ok, estava farta, proporcional para 3 pessoas... mas antes era comida pra mais de 10). Não tem mais necessidade de tomar banho no banheiro lá de fora, e entrar na casa enrolada na toalha. Não tem mais as chimias da Nona. Eu não ralo mais os meus joelhos nos degraus ásperos e irregulares da escada dos fundos, nem preciso mais dos band-aids ou do merthiolate como itens essenciais da mala. 

Mas tem a tia Lila, sempre tão carinhosa, no seu jeito simples de fazer um agrado. Tem o pé de ameixa, os pés de guabiju carregados, com as frutinhas ainda brotando. Tem a terra, a horta, e os temperos. Tem o alface, a couve, a salsinha. A sálvia, a cebolinha e o alecrim. Tem a jabuticabeira, com os frutos atacados pelos passarinhos. Tem os raminhos da família, que hora ou outra aparecem por lá pra tomar um chimarrão e jogar conversa fora. E tem aquele ar de saudade... esse, nunca vai embora.

 

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

As férias, e a reflexão.

Oi, gente. Estou de férias né... e ando muito reflexiva nesses últimos tempos. Escrever é uma coisa que me faz colocar os pensamentos em ordem, tipo uma terapia. Eu escrevo, eu releio, eu penso sobre aquilo. Eu deixo salvo em uma pasta perdida no computador, e esqueço. Aí um belo dia, encontro de novo, leio mais uma vez, e vejo tudo de outra perspectiva. Ou não... as vezes só dou uma cutucada nas velhas feridas mesmo. Sabe quando a gente tem um machucado sangrando, e quando ele finalmente começa a querer curar a gente vai lá e arranca a casquinha? É uma boa metáfora. 
Bom, nem tudo que eu escrevo vem parar no blog, e não é como se fosse um diário, são só pensamentos. Pois bem, mas acredito que por esses dias vocês vão acabar me vendo com uma frequência maior por aqui. Eu acho. 

O último ano foi complicado, né? Cheio de extremos e coisas inesperadas, altos e baixos... mas acho que isso é o que dá emoção pra vida, sei lá, faz a gente se sentir vivo. O objetivo desse post não é fazer um balanço de como foi o ano nem nada, nem passar uma mensagem bonitinha de superação e desejos para o próximo ano. Não é isso. Aliás eu não estou com cabeça nenhuma pra fazer isso, porque na real eu preciso é organizar a minha vida.

Esse ano eu vivi pra universidade, e isso não é de todo ruim... tirando o fato de que eu esqueci de mim mesma. Me larguei totalmente. Antes, eu vinha numa fase bem legal de amor próprio e cuidado comigo mesma. Auto-estima estava legal, eu tava conseguindo ser um pouco independente, tava prestando atenção em mim, indo pra academia todo dia, feliz, endorfinas e etc... feliz em me olhar no espelho, em usar uma roupa nova, ajeitar o cabelo, usar uma maquiagem diferente... 

Daí veio a reviravolta na vida. Me adaptar em uma cidade diferente foi ok... eu conheço pouca coisa da cidade, visto que minha rotina se baseia em ir de casa pra universidade e vice versa, todos os dias. No máximo uma caminhada pelo bairro, uma ida até o centro, umas voltas na redenção e olhe lá. 

Me adaptar em uma casa que não é a minha, em uma cama improvisada que não é a minha, consciente de que aquele espaço é emprestado e não me pertence, não foi tão ok. Passei o ano me anulando de todas as formas para não incomodar. Sem reclamar. Sem fazer barulho. "Foca no que tu veio fazer aqui". "Ignora o barulho e te concentra, faz as tuas coisas". "O principal aqui é estudar, não fica de mimimi!". "Não esquece que tem que ir no mercado, tem que lavar a roupa, tem que tirar a roupa seca da corda e guardar, tem que fazer comida pra amanhã, não deixa nada sujo na cozinha. Tem que recarregar o vale transporte, tem que sacar o dinheiro das contas desse mês, tem que manter tudo organizado, tu não pode ser um empecilho aqui, tu não tem pra onde ir". Isso em meio à pressão psicológica das milhões de provas, e trabalhos, e de tentar ser suficientemente boa o bastante para não repetir matérias na universidade, pra não ter que alongar ainda mais a minha estadia.

Não é como se eu não tivesse que ter responsabilidades também, se morasse sozinha. Ou se pelo menos dividisse o aluguel, tivesse um quarto, uma porta pra fechar e poder ficar sozinha de vez em quando. Eu ainda teria que ter todas essas ~responsabilidades de adulto~, porque elas fazem parte da minha vida, agora. Mas não é isso que me incomoda. Não é o cansaço de ter coisas pra fazer. É a constante sensação de que eu estou sendo um empecilho, sabe? De que nada daquilo me pertence, e eu só preciso abaixar a cabeça e aprender a conviver, mesmo que algo me desagrade.Também não é como se eu fosse mal agradecida, e estivesse reclamando. Eu sou grata por poder usufruir de algum espaço, e por causa disso ter a possibilidade de seguir estudando. 

O fato é que ao longo do ano, toda aquela onda de amor próprio e cuidado comigo mesma... desapareceu. Seja pelo motivo que for... sumiu. Como agora eu vivo de bolsa, e a grana é beeeeeeeeem limitada, desisti de procurar uma academia. E passei a me alimentar super mal, também. Seja pela preguiça + falta de habilidade de cozinhar algo mais elaborado todos os dias... seja pela grana curta, que só deixa comprar o essencial no supermercado. Digamos que esse ano eu comi mais miojos do que nos últimos 5. E pizzas congeladas. Várias. Não preciso nem dizer que engordei, né? Mas foda-se... é só usar roupas mais largas. "Foca no que tu veio fazer aqui, vai estudar. O resto não importa."

Desisti de manter o meu cabelo bonito. Ele era enorme, mas estava um bagaço. Cortei na altura do ombro. Preciso dizer... eu gostei. Dá muito menos trabalho! E aproveitei pra doar o pedação que saiu, pro hospital da criança, na Santa Casa. Eles fazem perucas com os cabelos doados!


 Mas daí eu desisti de pintar, também. E ele foi ficando cada vez mais opaco e desbotado. E a raiz, crescendo e deixando aparecer vários fios brancos que até não muito tempo, não existiam. "Isso não importa também. O que importa é que tu tem 5 provas essa semana, e precisa estudar". 

Ganhei olheiras, que foram ficando gradativamente mais escurecidas, pela falta de sono de qualidade. Ah, eu dormi... dormi bastante. Dormi encolhida na poltrona, quando estava com dor de cabeça demais pra continuar estudando. Dormi incontáveis cochilos nos sofás do DCE, na universidade, com as luzes acesas e uma galera conversando, jogando sinuca ou tocando violão em volta. Não me admira que eu estivesse sempre com dores terríveis nas costas. Não me admira que eu vivesse com sono. Sempre exausta, sempre cansada. Meus olhos, antes tão grandes e expressivos, estavam inchados e sempre semicerrados. As dores de cabeça... essas me acompanharam por vários dias. Sem falar nas crises de rinite alérgica. 

Maquiagem? Isso existe? Eu que não ia perder 10 minutos a mais de sono pra levantar mais cedo e me maquiar. Como eu ia maquiar meus olhos, se eles mal ficavam abertos, e eu passava o dia esfregando eles? Vou te contar como eu andava me arrumando: 15 minutos antes do horário que o meu ônibus passava, eu levantava. Colocava uma roupa qualquer. Espelho? Não... não tem espelho. Eu me olhava no reflexo da tela da televisão... as vezes. Ok, tem o espelho do banheiro, só de rosto. Lá eu escovava os dentes correndo, dava uma olhada na minha cara e, no máximo, prendia o cabelo com um elástico, se estivesse muito calor, ou se o cabelo estivesse muito bagunçado. Só isso. Pegava a mochila e saía correndo. 

E essa é a minha cara de "felicidade", na ultima semana do semestre.


Mas agora estou de férias. "Ah... férias. Agora tudo será diferente!"

Como vocês sabem (eu acho), voltei pra casa, em Caxias. Fazem mais ou menos 3 semanas que estou de férias. E, cara... como é estranho ter tempo pro ócio! Como é estranho ter tempo pra futilidade! Como é estranho ter tempo pra... cuidar de mim. Eu ainda sei fazer isso? Ainda sei cuidar de mim?
Me "aventurei" nas minhas maquiagens. Redescobri elas. Na verdade, estou redescobrindo aos poucos. Nessas semanas que estou de férias, eu já cortei mais um pedaço do meu cabelo. E pintei. E retoquei/matizei a mecha descolorida. Fiz pés e mãos. Esmaltes? Meu deus, eu tenho uma caixa de esmaltes! Quando foi a ultima fez que eu fiz as unhas? E as sobrancelhas? E o buço? Fiquei apavorada. Vi outro rosto no espelho diante de mim... um rosto com o qual eu não estava mais acostumada, do qual eu havia me esquecido.


Saí sozinha, fui no cinema, comprei livros, e li pelo simples prazer de ler... sem nenhuma obrigação. Assisti séries, temporadas em sequência... sem me sentir culpada porque eu deveria estar fazendo alguma outra coisa em vez disso. Dei uma volta, comprei batons novos! E umas roupinhas! Fui no oftalmologista, e descobri que minha miopia aumentou 1 grau. Fui fazer lentes novas pros meus óculos, inclusive pros óculos escuros. Encontrei amigas! Saí! Fui a um show, fui pra pizzaria, pro xis... não pela comida, mas pela companhia. Pelas horas de conversa cara a cara. Pelas histórias. Pelas risadas. A quanto tempo eu não fazia isso? Quando foi a ultima vez que eu saí?

Esvaziei meu guarda-roupas, e enchi três sacos ENORMES de roupas pra doação. Roupas que eu simplesmente não usava mais, ou que ficaram pequenas, ou que eu tinha guardadas desde os meus 14 anos pelo simples apego. Ainda preciso fazer o mesmo com os calçados. Acho que foi uma espécie de "preparação"... uma hora eu vou ter que mexer nas coisas da mãe. E separar. E ver com o que eu quero ficar. E levar o restante pra doação. Ainda não me sinto preparada pra isso... mas uma hora eu vou fazer. E vai ser antes de as férias terminarem.


Estou sem perspectivas pra 2016. Eu sei que vou voltar pra Porto Alegre. Eu sei que vou voltar pra UFCSPA. Eu sei que vou voltar pra rotina trabalhosa e cansativa. Só não posso deixar ela me engolir. Nem quero voltar a me anular. 
Preciso arrumar uma maneira. Preciso de mais dinheiro. Preciso dar um jeito de morar em outro lugar. De ter um pouco mais de liberdade. De privacidade. Preciso ter a liberdade de deixar uma baguncinha pra lá quando não estiver afim de arrumar. De almoçar fora quando não estiver com saco de cozinhar as 10hs da noite, pra levar marmita no dia seguinte. 
Preciso ter um tempo pra mim e FOR THE LOVE OF GOD....... preciso levantar essa bunda gorda e por ela pra fazer exercícios. Lembra do prazer que era aquela bomba de endorfina depois de uma aula de spinning, Valeska? Lembra como aquilo era gostoso? A quanto tempo tu não sente isso? Não tá legal esse sedentarismo. Não tá legal essa rotina, em que o ponto alto do dia é se encostar num sofá qualquer pra conseguir dar um cochilo. Não tá legal. Quero voltar pra universidade. sim. Mas não quero voltar pra essa rotina na qual não existe EU.